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O Brincar: explorando algumas perspectivas

O brincar é um fenômeno que pode ser compreendido de diversas formas, de acordo com a perspectiva que adotamos. No entanto, todas essas abordagens têm como denominador comum o princípio de que o brincar constitui as bases de um desenvolvimento saudável na infância. 

Para fins didáticos podemos dizer que o brincar auxilia o desenvolvimento nos seguintes âmbitos: afetivo-emocional, interpessoal ou social, físico-motor, e cognitivo-intelectual.

- Abordagem afetivo-emocional: seja uma atividade em grupo ou individual, o brincar possui uma natureza terapêutica relacionada à possibilidade de elaboração de sentimentos e experiências - prazerosas ou conflitivas. Sendo assim, é através do brincar que a criança dá significado às suas vivencias, e é através delas que ocorre a maturação do aparelho psíquico.

A criança adquire experiência brincando. A brincadeira é uma parcela importante de sua vida. As experiências, tanto externas quanto internas podem ser férteis para o adulto, mas para a criança essa riqueza encontra-se principalmente na brincadeira e na fantasia. Tal como as personalidades dos adultos se desenvolvem através de suas experiências de vida, assim as das crianças evoluem por intermédio das brincadeiras e das invenções de brincadeiras feitas por outras crianças e adultos. Ao enriquecerem-se, as crianças ampliam gradualmente a capacidade de enxergar a riqueza do mundo externamente real. A brincadeira é a prova evidente e constante da capacidade criadora, que quer dizer vivência.”                                           Winnicott(1964)

- Abordagem interpessoal ou social: Quando em grupo, o brincar possibilita também o aprendizado vindo da interação com outras crianças. Esta convivência constrói as bases dos relacionamentos interpessoais, seja através dos jogos de regra ou das brincadeiras de faz de conta. Essas últimas são aquelas que acontecem espontaneamente quando vemos, por exemplo, as crianças se organizando e distribuindo papéis, como papai, mamãe e filho, ou mocinho e bandido. Nas brincadeiras de Faz de Conta não existem regras a priori, e o caminho que elas tomam é mais claramente direcionado pelos conteúdos inconscientes das crianças. 

Os jogos de regra, embora não sejam exclusivos de atividades em grupo (lembremos do resta-1, quebras-cabeça, entre outros), como o próprio nome diz, é controlado por parâmetros mais ou menos fixos. Ele nos possibilita conhecer principalmente a forma como a criança se comporta frente às regras e limites de uma forma geral (se ela tenta burlar essas normas, se as obedece adequadamente ou de forma muito rígida).

Os jogos de regra podem ser basicamente de dois tipos: cooperativos ou competitivos.

Jogos cooperativos têm como objetivo final a concretização de uma tarefa comum a todos os jogadores, ou seja, todos precisam trabalhar juntos (cooperar) para finalizar o jogo. Quando a tarefa é concluída, pode-se dizer que todos os participantes são ganhadores. São jogos muito bons para a união de grupos heterogêneos e para a valorização do trabalho do colega.

 Exemplo: Quebra-cabeça gigante

Distribuem-se as peças entre os
participantes e todos juntos
devem tentar montar o
 quebra-cabeça

   

Jogo competitivo: seu objetivo envolve a competição entre as crianças (individualmente ou em times) para verificar quem desempenha melhor uma determinada tarefa. Permite a criança dar vazão a sentimentos ditos “negativos” como agressividade, raiva, frustração de forma adequada, ou seja, pela via simbólica. Outro aspecto importante desses jogos é o aprendizado e a elaboração de situações que causam frustração (derrota) ou prazer (vitória), questões estas que transcendem o momento do jogo.

Exemplo: torremoto

Os participantes competem entre si com
o objetivo de tirar o máximo de peças
possível da torre maluca, sem deixá-la cair.
O jogador que estiver tentando tirar a peça
quando a torre cair perde o jogo.

 

- Abordagem no âmbito físico-motor: durante a brincadeira, espontaneamente a criança desenvolve e aperfeiçoa habilidades como a coordenação motora grossa e a coordenação motora fina, cujo bom desenvolvimento é essencial para a escrita e atividades manuais de precisão. Elas auxiliam também o desenvolvimento corporal-cinestésico, as noções de possibilidades e limites do próprio corpo (controle de gesto, precisão de movimentos) e lateralidade. Veremos mais adiante alguns exemplos de brinquedos que favorecem o desenvolvimento dessas habilidades.

- Abordagem no âmbito cognitivo-intelectual: alguns brinquedos colocam a criança diante de uma situação na qual ela tem que se mobilizar (física e/ou intelectualmente) para encontrar uma solução que lhe permita desfrutar do próprio brinquedo. Por exemplo, quando uma criança pergunta:

 

“Como essa fábrica de bolinha funciona?
Meu pai falou que o motor do carro também
funciona assim, mas lá não tem essa lavanca (sic)..”*
“Mas como é que esse patinho
desce a rampa? Tem pilha?”*

 

Dessa forma, vemos que alguns brinquedos impulsionam a criança a pensar além dos limites dos conhecimentos já adquiridos (o que Piaget chamaria de acomodação). Além disso, durante a brincadeira a criança exercita a percepção de cores, formas, tamanhos, espaços, e o raciocínio lógico. Aprimora e desenvolve também a formação de conceitos, a capacidade de criar estratégias, o vocabulário e a memória.

Considerações

Ao falar do desenvolvimento infantil devemos sempre nos atentar para algumas questões. A primeira delas é que este desenvolvimento não é pré-determinado, mas acontece no cruzamento de fatores ontogenéticos, filogenéticos e culturais. Ou seja, ele depende tanto de fatores internos (pré-disposição orgânica ou genética do individuo para o crescimento) quanto externos (estimulação e relação que ele estabelece com o meio ambiente, incluindo as relações familiares e culturais). Sendo assim, os esquemas de desenvolvimento, como o que veremos agora, são de grande auxílio para o trabalho com crianças. Especialmente para educadores, eles facilitam a compreensão do universo infantil e, em termos práticos, a escolha das atividades (e brincadeiras) a serem propostas em sala de aula. No entanto, deve-se sempre levar em conta o fato de que esses esquemas revelam uma tendência a deve ser analisada junto com a história de vida de cada criança e das particularidades de seu ambiente sócio-cultural.